Um ursinho que responde às perguntas da criança e lembra o nome do cachorro da família depende de pelo menos três peças eletrônicas: um microfone, um chip de conexão sem fio e um sistema que processa o que ela fala. Em 13 de outubro de 2026, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicou uma nota de alerta sobre brinquedos com inteligência artificial, com perguntas que as famílias devem fazer antes da compra.
Antes de comprar:
Descubra se o brinquedo tem câmera ou microfone, se precisa de internet e quais recursos já vêm ligados de fábrica.
Procure o selo da Anatel, se houver Wi-Fi ou Bluetooth, e o do Inmetro, obrigatório em brinquedos.
Se essas informações não estiverem acessíveis, a SBP recomenda não comprar.
Elaborado pelo Grupo de Trabalho de Saúde Digital da entidade, o documento lembra que um brinquedo conectado pode reunir microfone, câmera, acesso à internet, coleta de dados e mecanismos de personalização. A Agência Brasil repercutiu o alerta em 21 de outubro. Para a SBP, a pergunta certa não é só o que o produto faz, mas como funciona, que dados coleta e para que eles servem.
A nota não traz regras por idade. As perguntas que ela propõe, porém, pesam de forma diferente conforme a fase da criança, e a parte eletrônica ajuda a responder cada uma delas.
Até 3 anos: a indicação etária vem antes de qualquer recurso
Nessa fase, a criança não tem como entender que conversa com uma máquina, e a SBP pergunta justamente se ela compreenderá, conforme a idade, que fala com uma IA e não com uma pessoa. A entidade orienta priorizar produtos sem IA generativa, conversas abertas ou simulação de afeto quando esses recursos não trazem benefício claro.
Na prática, o primeiro filtro é a faixa etária impressa na embalagem, ao lado do selo do Inmetro. Segundo o Ipem do Paraná, esse selo é obrigatório para brinquedos nacionais e importados, e a embalagem precisa informar idade indicada, riscos e dados do fabricante. Um brinquedo eletrônico sem a indicação para a idade do seu filho já está descartado.
De 4 a 8 anos: como o microfone é ligado
Como a criança dessa idade interage com o brinquedo principalmente pela fala, a ficha técnica ou o manual devem responder:
- O microfone escuta o tempo todo ou só quando a criança aperta um botão? Escuta contínua significa captar conversas da casa inteira.
- Existe luz que acende quando o áudio está sendo captado? Ela permite que um adulto perceba a gravação.
- Há chave física para desligar o microfone? Um botão no corpo do brinquedo é mais confiável que uma opção escondida no aplicativo.
- As falas ficam guardadas e podem ser apagadas? A SBP lista onde os dados são armazenados e se é possível apagá-los entre as informações essenciais.
De 9 a 12 anos: câmera, aplicativo e compras
Alguns brinquedos para essa faixa têm câmera para reconhecer rostos ou objetos e dependem de um aplicativo de celular para a configuração. A SBP pergunta se o uso expõe a criança a perfilamento, publicidade, compras ou assinaturas associadas. Antes de instalar o aplicativo, veja quais permissões ele pede no celular e se o recurso de compras pode ser bloqueado na conta dos pais.

Adolescentes: produtos que simulam amizade
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), citado na nota, alerta para os AI companions, produtos que estimulam conversas em formato de relacionamento. Uma revisão publicada na revista Pediatrics, também mencionada pela SBP, aponta o risco de a criança ver a IA como amiga ou cuidadora. Para essa faixa, a checagem eletrônica conta menos que a pergunta sobre o tipo de vínculo que o produto tenta criar e o lugar que ele ocupa na rotina, ao lado do sono, da leitura e da convivência familiar.
Selo da Anatel e selo do Inmetro: o que cada um atesta
Brinquedos que se conectam por Wi-Fi ou Bluetooth usam radiofrequência e entram na regra de certificação de produtos de telecomunicações. Segundo a página de certificação de produtos da Anatel, a homologação garante padrões de qualidade, segurança e funcionamento técnico e o uso adequado do espectro. É o mesmo processo pelo qual passou a antena da SpaceSail homologada pela Anatel.
Desde 8 de setembro de 2026, fabricantes e importadores fazem esse pedido pela plataforma Certifica, que substituiu o antigo SCH. A Anatel informou que nada muda para o consumidor final. O selo do Inmetro, por sua vez, cuida da segurança física, como o risco de peças pequenas se soltarem, a propagação de chamas e o ruído excessivo, segundo o Ipem-PR.
Nenhum dos dois selos avalia o que a IA responde à criança nem o destino das gravações. Essas respostas dependem das informações do fabricante, que o ECA Digital obriga a informar pais e responsáveis sobre riscos e medidas de segurança, inclusive de privacidade, de acordo com a SBP.
A tabela resume onde procurar cada resposta antes de fechar a compra.
| Componente | O que perguntar | Onde costuma estar a resposta |
|---|---|---|
| Microfone | Fica sempre ativo? Dá para desligar? | Manual e ficha técnica |
| Câmera | Grava ou só reconhece imagens? Guarda fotos? | Política de privacidade |
| Wi-Fi ou Bluetooth | Funciona sem conexão? | Embalagem e manual |
| Aplicativo | Que permissões pede? Tem compras internas? | Loja de aplicativos |
| Dados da criança | São compartilhados com terceiros? Podem ser apagados? | Política de privacidade |
| Homologação | Tem selo e número da Anatel? | Etiqueta no produto ou na embalagem |
E se o brinquedo coletar mais do que dizia?
A SBP lista quatro caminhos: pedir ao fornecedor informação, correção ou eliminação dos dados da criança (LGPD, art. 18); desistir em até sete dias do recebimento quando a compra foi feita fora da loja física (Código de Defesa do Consumidor, art. 49); usar os canais de notificação do fornecedor (ECA Digital, art. 28); e reclamar no Procon, no consumidor.gov.br ou na Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
Efeitos de longo prazo ainda sem resposta
A própria SBP reconhece que os efeitos dessas interações sobre a saúde mental e o comportamento das crianças ainda não estão suficientemente mapeados. A entidade ressalta que a incerteza científica não significa ausência de risco e cita o Muse Charm, dispositivo da Meta anunciado em setembro que não é voltado a crianças, como sinal de que agentes de IA estão ganhando formas físicas e portáteis. Também defende que a proteção não fique só com as famílias e envolva fabricantes, desenvolvedores, fornecedores e poder público. Que regras específicas virão para esse tipo de produto é a pergunta que segue aberta.











